Cenário Econômico: Atualizações para o PIB brasileiro

Em 2020, observamos o alastramento da pandemia da Covid-19 em quase todos os países, inclusive o Brasil. Por não existirem tratamentos ou vacinas associadas à doença, a maior parte dos países adotaram algum tipo de medida de distanciamento social. Essas medidas, no entanto, acabaram por impactar a atividade econômica e, conforme mencionado no Comentário SOMMA 53, fizeram com que a nossa estimativa para a queda da economia brasileira chegasse à -7,8%.

Contudo, passado o período crítico de isolamento social no país – observado entre os meses de abril e maio – os indicadores mostraram recuperação da atividade econômica. As medidas do governo – auxílio emergencial, medidas de manutenção de emprego e medidas de crédito – que tinham como objetivo minimizar os impactos da pandemia, surtiram efeito e os dados do segundo trimestre do ano apresentaram quedas menores do que as previamente esperadas. Ainda, dados de comércio varejista e da indústria do terceiro trimestre, por exemplo, mostraram resultados melhores do que as expectativas.

Desta forma, apesar de terem sido observadas quedas recordes na atividade do 2º trimestre, o que se seguiu foram revisões positivas das projeções de atividade econômica brasileira, e é diante desse cenário que apresentamos nossas novas projeções para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020 e 2021.

O objetivo deste comentário é apresentar o resultado do PIB brasileiro no 2º trimestre de 2020 e a revisão de nossas projeções para o crescimento do PIB em 2020 e 2021.

PIB brasileiro no 2º trimestre de 2020

Em setembro, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou o resultado do PIB para o segundo trimestre de 2020. Conforme o esperado, observou-se que as medidas de distanciamento social, adotadas a partir da segunda semana de março, repercutiram em todos os setores, provocando quedas recordes de atividade – como pode ser examinado na Figura 1. Segundo o IBGE, a economia brasileira apresentou contração de 9,7% no 2º trimestre de 2020, na comparação com o trimestre anterior, em linha com as expectativas do mercado. Já na comparação com o mesmo trimestre do ano passado, a queda foi de –11,4%

Ao analisarmos os resultados do 2º trimestre de 2020 com o 2º trimestre de 2019, vemos que, pelo lado da oferta, foram observados recuos recordes do setor industrial (-12,7%) e do setor de serviços (-11,2%); o setor agropecuário, por outro lado, apresentou crescimento de 1,2%.

O resultado positivo da agropecuária pode ser explicado pelo desempenho de produtos com safras relevantes nesse trimestre – como soja (5,9%), café (18,2%) e arroz (7,3%). Eles compensaram o fraco desempenho de outras lavouras como feijão (-4,0%) e milho (-0,8%). Também é importante notar o fraco desempenho da pecuária e da produção florestal.

Dentre as atividades industriais, a Indústria Extrativa foi a única que apresentou crescimento, com alta de 6,8%. Apresentaram taxas negativas a Construção (-11,1%), a Indústria da Transformação (-20,0%) e as atividades de eletricidade e água (-5,8%).

Com relação os serviços, as únicas variações positivas vieram das atividades imobiliárias (+1,4%) e das intermediações financeira e de seguros (3,6%). Nos resultados negativos destaque para Outros Serviços (-23,6%), Transporte, armazenagem e correio (-20,8%) e Comércio (-14,1%).

Evolução do PIB e Componentes da Oferta

Figura 1: Evolução do PIB e Componentes da Oferta (índice 2014.2 =100); Fonte: IBGE Elaboração: SOMMA Investimentos.

Pela ótica da demanda – também na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior – nota-se o impacto da pandemia no consumo das famílias, que apresentou queda de 13,5% no segundo trimestre do ano enquanto a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) e a Despesa de Consumo do Governo apresentaram quedas de, respectivamente, 15,2% e 8,6% no trimestre. Entre os componentes do setor externo, as exportações de bens e serviços tiveram alta de 0,5%, enquanto as importações caíram 14,9%.

Ainda pela ótica da demanda, é importante notar a interrupção do desempenho positivo dos investimentos (FBCF) e das importações, que havia sido observado no trimestre anterior. Os dados indicam, conforme o esperado, que o processo de retomada econômica que estava em andamento foi interrompido em função da pandemia. Quando avaliamos em uma janela maior, tal como apresentado na Figura 2, é possível perceber um desempenho fraco dos investimentos nos últimos anos.

Evolução do PIB e Componentes da Demanda (Índice 2014.2 = 100)

Figura 2: Evolução do PIB e Componentes da Demanda (índice 2014.2 =100);
Fonte: IBGE Elaboração: SOMMA Investimentos.

O que esperar para os próximos meses

Conforme o esperado, os piores impactos da pandemia na economia brasileira parecem ter acontecido no 2º trimestre do ano. Dados de atividade e de confiança dos setores para o terceiro e o quarto trimestre mostram retomada da atividade, inclusive com velocidade acima da esperada inicialmente.

A produção industrial, por exemplo, cresceu 8,0% em julho, apresentando três meses seguidos de alta. Assim, eliminou parte da perda de 27,0% acumulada em março e abril, momento de agravamento dos efeitos do isolamento social.

Por fim, a retomada também foi significativa nos indicadores de confiança dos setores e no consumo. O índice de Confiança Empresarial da FGV – indicador que consolida os índices de confiança dos quatro setores: Indústria, Serviços, Comércio e Construção – aumentou 7,0 pontos em agosto, recuperando 96% das perdas ocorridas no bimestre março-abril. O índice de confiança dos consumidores, por sua vez, subiu 1,4 pontos, alcançando o mesmo nível de março desse ano quando a economia começou a ser impactada pela pandemia do novo coronavírus. Esses indicadores são de grande importância pois aumentos na confiança dos agentes econômicos se refletem positivamente em suas decisões de consumo e de investimento.

Diante disso, após queda recordes no 2T20, esperamos crescimento de 4,5% no terceiro e no quarto trimestre. Com a estabilização da pandemia – que já começa a ser observada desde o início de setembro – e com a extensão do auxílio emergencial espera-se a retomada da economia no terceiro trimestre. Em nosso cenário base, o crescimento da atividade ganha maior tração no último trimestre de 2020, com maior força em 2021 – com o crescimento condicionado ao surgimento de uma vacina e à aprovação de reformas no cenário político brasileiro.

Projeções da Pesquisa Focus

Antes de demonstrar a abertura das nossas projeções, vamos apresentar as projeções de crescimento para este ano obtidas a partir da pesquisa Focus. Na Figura 3, a região sombreada mostra o intervalo (máximo e mínimo) das expectativas e a linha azul mostra a sua mediana.

Conforme apresentado, houve revisão positiva nas expectativas para o crescimento desse ano desde o início da pandemia no país. Em junho, o mercado esperava contração ao redor de 6,50% para 2020 – com o intervalo das projeções indo de -10,07 até -3,83%. Atualmente, devido aos resultados de indicadores de atividade econômica melhores do que o esperado, as projeções indicam contração menor, de 5,10% no ano.

Também é importante notar que a grande variabilidade das projeções de mercado permanece. O agente mais otimista espera queda de 2,72% este ano, enquanto a projeção mais pessimista espera queda de 9,08%.

Crescimento Esperado do PIB em 2020 (Pesquisa Focus)

Figura 3: Crescimento Esperado do PIB – Focus (%);
Fonte: BC. Elaboração: SOMMA Investimentos.

Nossas projeções

No que diz respeito às nossas projeções, o crescimento esperado para 2020 e para 2021 podem ser observados na Figura 4. Como descrito no Comentário SOMMA 53, projetávamos uma contração de 7,8% para 2020 no pico da pandemia. Entretanto, após dados de atividade se mostrarem melhor do que o esperado, revisamos a nossa projeção para uma contração de 5,1% neste ano.

Para 2021 mantivemos a nossa projeção de crescimento inalterada. Devido sobretudo à base de comparação baixa e à continuidade de perspectiva de retomada do crescimento a partir do terceiro e quarto trimestre de 2020, mantivemos nossa projeção em 4,2%.

Crescimento anual do PIB 

Figura 4: Crescimento anual do PIB
Fonte: BC. Elaboração: SOMMA Investimentos.

Considerações finais

Devido aos impactos da pandemia na economia brasileira, esperamos contração do PIB na ordem de -5,1% no ano de 2020. Apesar das quedas recordes da atividade no segundo trimestre, já começamos a observar uma retomada da atividade a partir dos meses de junho e julho.

É importante notar a importância dos programas governamentais para amenizar os impactos da pandemia na economia, como o programa de auxílio emergencial, programas de crédito e programas de manutenção de emprego.

Apesar do cenário relativamente mais favorável do que em nossa revisão anterior, são necessárias algumas considerações. Os países desenvolvidos – que em sua maioria já haviam controlado a pandemia – voltaram a registrar novas ondas da doença, um cenário que não pode ser descartado no Brasil até que se tenha uma vacina amplamente distribuída.

Ainda, incertezas sobre a retomada sustentável da economia permanecem, principalmente com o fim dos programas de transferência de renda do governo no final do ano. Apesar de acreditarmos que a recuperação deva acontecer, não se pode descartar a possibilidade de ela ser mais lenta do que o esperado.

Por fim, outro fator importante a observar é a retomada do ajuste fiscal. O impacto fiscal das medidas anunciadas para conter os impactos da pandemia é bastante expressivo e deve ser restrito a esse ano. Em 2021, espera-se a retomada da agenda de reformas, inclusive com reformas mais robustas.

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