Eleições norte-americanas: Pesquisas indicam vitória democrata na Presidência e Congresso

A menos de um mês para as eleições norte-americanas, principal evento político internacional deste ano, a vantagem apresentada pelo candidato Joe Biden (Democrata) ante o candidato incumbente, Donald Trump (Republicano), permanece elevada. As pesquisas[1] em nível nacional e em estados-chave mostram que Biden deve vencer a disputa com alguma folga.

Além disso, a disputa pelo controle do Congresso será importante para definir qual será o potencial de avanço da agenda de Biden. Neste sentido, as pesquisas mostram uma grande chance de os democratas manterem o controle da Câmara dos Deputados e, ao mesmo tempo, assumirem o controle do Senado pela primeira vez nos últimos 6 anos.

Caso esse cenário se concretize, vemos como provável a adoção de uma série de estímulos fiscais na economia americana e, ao mesmo tempo, um aumento de impostos sobre as empresas e famílias de renda mais elevada.

O objetivo deste comentário é atualizar o cenário das eleições americanas de novembro, mostrando os resultados mais prováveis de acordo com as pesquisas.

ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2020

Nas últimas semanas, houve uma consolidação da vantagem de Joe Biden na disputa contra Donald Trump pela presidência norte-americana. Uma das principais razões para isso foi o desempenho no primeiro debate presidencial, que ocorreu no fim de setembro.

Uma pesquisa conduzida logo após o evento mostrou que 60% telespectadores afirmaram que Biden teria vencido o debate, enquanto 28% dos entrevistados afirmou que a vitória teria sido de Trump[2]. Conforme apresentado na Figura 1, a probabilidade de vitória democrata na eleição presidencial deste ano está em 65%, de acordo com casas de apostas – com um aumento próximo a 5 p.p. na vantagem de Biden logo após o debate.

Figura 4: Chances de obter maioria no Senado;
Fonte: Bloomberg e Predict It. Elaboração: SOMMA Investimentos.

Além de ter apresentado desempenho pior do que o oponente no primeiro debate, ter contraído o novo coronavírus foi outro evento adverso às chances de reeleição de Donald Trump. Segundo pesquisa Reuters/Ipsos, 65% dos entrevistados afirmou que o Presidente poderia não ter contraído a Covid-19 se tivesse levado mais a sério a possibilidade de infecção.

Conforme ilustrado na Figura 2 – que apresenta o levantamento feito pelo Real Clear Politics sobre a média das pesquisas eleitorais nacionais nos EUA – Joe Biden mantém uma vantagem considerável nas pesquisas a nível nacional. Esta vantagem se manteve relativamente constante nos últimos 2 meses (em cerca de 8 pontos percentuais).

Figura 2: Média das Pesquisas Nacionais para a Presidência Norte-americana;
Fonte: Real Clear Politics e Bloomberg. Elaboração: SOMMA Investimentos.

As pesquisas em nível estadual também mostram uma vantagem significativa de Biden na maioria dos estados que serão essenciais para definir a disputa (swing states).

Com base nas pesquisas, acreditamos que Biden vencerá em ao menos 7 desses estados (Flórida, Arizona, Wisconsin, Pensilvânia, Michigan, Minnesota, New Hampshire). Caso este cenário se confirme, Biden ficaria com 318 delegados – acima dos 270 que precisa para vencer – contando com sua derrota em Ohio e na Carolina do Norte.

É importante destacar que ainda que Biden perca nos estados da Flórida (29 delegados) e no Arizona (11 delegados) – onde sua vantagem nas pesquisas, embora suficiente para vencer, não é tão grande quanto nos outros 5 swing states – ele ainda ficaria com um número de delegados suficiente para vencer a disputa (278). Assim, vemos como amplamente favoráveis as chances de eleição do candidato democrata.

ELEIÇÕES PARA O CONGRESSO

O panorama para as eleições da Câmara dos Deputados norte-americana não apresentou grandes mudanças nas últimas semanas. As pesquisas – assim como sites de apostas – atribuem clara vantagem aos democratas para manterem o controle da Casa. Tal como ilustrado na Figura 3, o site Predict It atribui 87% de chance de maioria Democrata e apenas 14% de chance de controle republicano.

Figura 3: Chances de obter maioria na Câmara dos Deputados;
Fonte: Bloomberg e Predict It. Elaboração: SOMMA Investimentos.

Com relação à disputa pelo Senado, as pesquisas e sites de apostas mostram que o controle pode deixar de ser republicano e passar a ser democrata. Para isso acontecer, os democratas precisariam tomar 3 ou mais cadeiras dos 23 assentos republicanos que estarão em disputa.

Conforme ilustrado na Figura 4, atualmente as casas de apostas atribuem 68% de chance de a casa passar a ter controle democrata. Esta seria a primeira vez nos últimos 6 anos em que isso aconteceria.

Figura 4: Chances de obter maioria no Senado;
Fonte: Bloomberg e Predict It. Elaboração: SOMMA Investimentos.

Acreditamos que 4 estados americanos serão chave para decidir a disputa pelo Senado:

  1. No Colorado, o candidato incumbente, Cory Gardner (Rep.) enfrentará John Hickenlooper (Dem.) – político experiente no estado e que já fora prefeito de Denver. Hickenlooper tem apresentado vantagens sólidas nas pesquisas mais recentes.
  2. No Arizona, a situação é semelhante. A candidata Martha McSally (Rep.) – eleita em 2018 para substituir o senador John McCain – aparece atrás do ex-astronauta da Nasa, Mark Kelly (Dem.), nas pesquisas eleitorais.
  3. As pesquisas no Estado da Carolina do Norte também mostram que Cal Cunningham (Dem.) pode derrotar Tom Tillis (Rep.).
  4. Por fim, uma das disputas mais interessantes para o Senado será no estado de Maine, onde a Senadora Susan Collins (Rep.) – que está no cargo desde 1997 e inclusive, foi a mais votada da história do estado em 2008 – aparece atrás de Sara Gideon (Dem.) que preside a assembleia legislativa do estado.

Desta forma, o cenário mais provável atualmente é o de que os democratas assumam o controle de ambas as casas do Congresso.

Cenários Eleitorais e Considerações Finais

Com base nas pesquisas nacionais e em estados-chave (swing states) para a Presidência e para as duas casas do Congresso Americano, acreditamos que as três seguintes combinações de resultados são as mais prováveis:

  1. Democratas vencem a Presidência, e detêm o controle do Senado e da Câmara (54% de chance): Neste caso, a agenda democrata – que inclui, entre outras coisas, aumento de impostos para empresas e famílias mais ricas, além de maiores gastos em saúde, educação e infraestrutura – andaria com maior facilidade. Caso este cenário se confirme, também pode-se esperar um novo pacote de estímulo fiscal por parte do governo.
  2. Biden vence, mas Senado se mantém Republicano e Câmara Democrata (26% de chance): Se os republicanos conseguirem manter o controle do Senado e Biden derrotar Trump, é de se esperar uma maior dificuldade para a agenda democrata avançar. Neste caso, quaisquer avanços dependerão de negociação com senadores republicanos.
  3. Trump Reeleito, com Senado Republicano e Câmara Democrata (14% de chance): Caso Trump consiga, de maneira surpreendente, vencer a eleição e a composição do Congresso permaneça a atual, quaisquer avanços da agenda legislativa serão muito limitados. O Congresso dividido dificultaria avanços significativos da agenda de Trump – tais como desoneração da folha de pagamento. A manutenção de impostos baixos, seria contrabalanceada pela manutenção de uma agenda protecionista – com grande possibilidade de retomada da guerra comercial com a China, tendo em vista o não cumprimento das compras chinesas de mercadorias americanas, negociadas na Fase 1 do acordo comercial.

Assim, o cenário mais provável atualmente contempla a eleição de Joe Biden, que contaria ainda com um congresso democrata – o que seria amplamente favorável ao avanço de sua agenda. Uma vitória ampla de Biden – isto é, com um elevado número de delegados – também teria como benefício reduzir as chances de uma contestação do resultado eleitoral, que geraria um aumento expressivo de incerteza no curto prazo.

Em termos de impactos potenciais para o mercado, acreditamos que, apesar de o aumento de impostos proposto pelos democratas ser negativo. Esse impacto poderia ser compensado por ao menos dois pontos positivos: i) Redução das tensões comerciais (sobretudo com a China); e ii) adoção de medidas de auxílio fiscal no começo de 2021.

Conforme destacamos no Comentário SOMMA 56, a vitória de Biden pode levar a uma deterioração da relação entre o Brasil e os EUA, sobretudo por conta do maior interesse do partido democrata em avaliar as condições ambientais brasileiras. Neste sentido, haverá uma maior pressão externa – via, por exemplo, ameaça de sanções comerciais – para o governo brasileiro adereçar a questão ambiental.

[1] Acreditamos que, ao contrário de 2016 – quando as pesquisas mostravam uma vantagem sólida da candidata democrata, Hillary Clinton, no confronto contra Donald Trump – as pesquisas eleitorais não devem produzir erros tão expressivos a ponto de resultarem na reeleição de Trump, sobretudo por conta da perspectiva de uma maior participação dos eleitores afro-americanos nesta eleição – cuja redução da taxa de participação na eleição presidencial passada foi determinante para o desvio expressivo entre as pesquisas e o resultado da eleição.
[2] A pesquisa da CNN foi conduzida pelo instituto SSRS e possui margem de erro de 6,3 p.p.

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