Eleições nos EUA: Joe Biden mantém vantagem expressiva contra Donald Trump

Um dos principais eventos políticos deste ano serão as eleições americanas, que acontecerão em novembro. O atual presidente, Donald Trump (Republicano) terá como principal adversário o Democrata Joe Biden – ex-vice presidente de Barack Obama.

As pesquisas eleitorais têm apresentado uma sólida vantagem de Biden contra Trump, o que se deveu, principalmente, à avaliação de que Trump não teve uma boa atuação durante a pandemia do novo coronavírus, uma vez que os EUA foram o país com maior número de casos confirmados até o momento – com cerca de 4 milhões de casos (equivalente a cerca de 1.1% da população) e mais de 140 mil mortes (421 por milhão de habitantes). A recessão econômica ocasionada pelo coronavírus, também prejudicou o atual presidente. Nesse comentário, abordaremos questões relacionadas ao processo eleitoral nos EUA, além das propostas de Biden e os resultados das pesquisas. Além disso, falaremos sobre a disputa para o Congresso norte-americano.

O objetivo deste comentário é exibir o panorama para as eleições americanas de novembro.

AS ELEIÇÕES NORTE-AMERICANAS DE 2020

Além da eleição presidencial, que acontecerá no dia 3 de novembro, também estarão em disputa os 435 assentos na Câmara dos Deputados dos EUA – os vencedores terão mandatos de dois anos – e 35 dos 100 assentos no Senado – os senadores eleitos terão mandatos de 6 anos, à exceção dos estados de Geórgia e Arizona, cujos vencedores servirão por 2 anos.

Além disso, 11 estados realizarão eleições para governadores e a grande maioria dos cinquenta estados realizará eleições legislativas estaduais. Também serão realizadas eleições para prefeitos em muitas cidades, sendo algumas delas San Diego (Califórnia), El Paso (Texas) e Phoenix (Arizona).

ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS

Nos Estados Unidos, o processo eleitoral é bastante complexo, e apresenta diversas diferenças quando comparado ao processo eleitoral brasileiro. Um dos conceitos mais importantes é o de colégio eleitoral.

Colégio Eleitoral

Uma das principais características das eleições presidenciais nos EUA é o fato de que as eleições não são diretas – ou seja, resultado do cômputo dos votos dos cidadãos em cada candidato. Em vez disso, os eleitores escolhem o Colégio Eleitoral, que é composto por um total de 538 delegados espalhados pelo país. Uma implicação prática deste sistema é que o presidente pode ser eleito sem ter obtido a maioria dos votos no país [1].

Sob o sistema de colégio eleitoral, após os eleitores escolherem seu candidato presidencial, os votos são contabilizados em nível estadual. Em 48 estados e Washington D.C. há o sistema de “vencedor leva tudo” [2], onde o candidato que obtiver a maioria dos votos no estado fica com todos os delegados; desta forma, apenas os delegados de seu partido representarão o Estado no Colégio Eleitoral. Para se eleger, o presidente precisa obter 270 delegados.

O número de delegados de cada estado é proporcional à sua população e ao número de parlamentares que os representam (no Senado e na Câmara dos Deputados). Conforme apresentado na Figura 1, Califórnia (estado mais populoso do país) tem 55 delegados, enquanto Washington D.C. e outros estados apenas 3.

Figura 1: Número de Delegados dos EUA por Colégio Eleitoral;
Fonte e Elaboração: 270 to Win.

Mudança de cenário desfavorece reeleição de Donald Trump

O cenário para a disputa presidencial de novembro mudou expressivamente nos últimos meses, tendo em vista a pandemia do novo coronavírus. Em consonância com a piora da economia, as chances de reeleição de Trump caíram acentuadamente.

Conforme ilustra a Figura 2, a reprovação de Donald Trump apresentou aumento desde o início de abril, quando estava ligeiramente abaixo de 50%, para 55.9%. A aprovação, por outro lado, apresentou queda de cerca de 4 p.p. para cerca de 42%.

Aprovação de Donald Trump

Figura 2: Aprovação de Donald Trump;
Fonte: Bloomberg. Elaboração: SOMMA Investimentos.

Entre os motivos por trás dessas mudanças, podemos destacar o número elevado de casos e de mortes por coronavírus no país. A recessão econômica provocada pela pandemia da Covid-19, e a subsequente piora do mercado de trabalho, também contribuíram, uma vez que eram uma das principais forças de Trump para disputar sua reeleição.

Ainda, os protestos contra a morte de George Floyd, acentuaram a queda na aprovação de Trump. Pesquisas mostraram que o público reprovou a resposta de Trump aos eventos – como, por exemplo, a ameaça de invocar a Lei de 1807, que permitiria o emprego das forças armadas contra as manifestações.

Joe Biden: principal adversário de Donald Trump

O principal adversário de Donald Trump nas eleições deste ano será o ex-vice-presidente, Joe Biden, que foi senador pelo estado de Delaware por 7 mandatos  e tentou ser presidente em duas ocasiões, 1988 e 2008 – nesta última acabou se tornando vice de Barack Obama, onde ficou pelos dois mandatos do ex-presidente americano. Biden tem 77 anos e, caso eleito, será o presidente mais velho da história dos EUA [3].

Joe Biden ainda não definiu o seu vice-presidente, mas a escolhida deve ser mulher, com perfil mais jovem e alinhamento ideológico com o candidato. Com base nesse perfil, há ao menos uma dezena de possíveis candidatas, que estão apresentadas a seguir.

Uma das favoritas ao posto de vice de Biden é Kamala Harris, atual senadora pelo estado da Flórida. Kamala chegou a disputar as primárias democratas, o que pode constituir uma vantagem, tendo em vista que já é uma figura conhecida do público; além disso, possui um perfil político mais moderado, alinhado com o de Biden.

Um dos principais pontos da campanha de Biden é a sua proposta de reforma tributária. A proposta do candidato democrata, cujos principais pontos estão apresentados na Tabela 1, prevê o aumento de impostos para empresas e para famílias com renda mais alta (acima de US$ 400 mil).

A proposta prevê, ainda, a revogação parcial dos cortes de impostos corporativos conduzida pelo presidente Trump em 2017, no Tax Cuts and Jobs Act, onde houve a redução do imposto sobre empresas de 35% para 21%; Biden propôs aumentar a alíquota em 7 p.p. para 28%. Além disso, Biden propôs dobrar a alíquota mínima de imposto sobre os lucros de subsidiárias estrangeiras das empresas americanas (de 10.5% para 21%).

Pelo lado dos gastos, Biden propôs utilizar o valor arrecadado com um aumento dos gastos sociais, atribuindo uma ênfase à compra de produtos americanos (“Buy American”). Por fim, Biden defendeu utilizar um maior volume de recursos no combate às mudanças climáticas.

Tabela 1: Proposta Tributária de Joe Biden;
Fonte: OMS. Elaboração: SOMMA Investimentos.

Pesquisas Eleitorais mostram Biden como favorito

Conforme destacamos, a pandemia do novo coronavírus, em conjunto com a deterioração da situação econômica americana levou a uma piora da aprovação de Donald Trump e, por conseguinte, a um aumento das chances de vitória democrata nas eleições de novembro.

A Figura 3 mostra uma média das pesquisas eleitorais nacionais para a disputa presidencial, através do levantamento feito pelo site Real Clear Politics. Como é possível perceber, Joe Biden mantém uma vantagem expressiva na disputa contra Trump, atualmente acima de 8 p.p; há dois meses, essa diferença era de cerca de 4 p.p.

Trump x Biden

(Média de Pesquisas Real Clear Politics)

Figura 3: Média das pesquisas nacionais da disputa pela Presidência;
Fonte: Bloomberg, Real Clear Politics. Elaboração: SOMMA Investimentos.

Considerando o número de delegados provável para cada candidato, ou seja, desagregando a pesquisa nacional nos estados, também é possível observar uma vantagem expressiva de Biden. O levantamento feito pelo site 270 to win mostra que, caso as pesquisas eleitorais a nível de estado estejam corretas, Biden possuiria mais de 270 delegados (número necessário para vencer) mesmo com a disputa indefinida em 12 estados, que representam outros 135 delegados.

ELEIÇÕES PARA O CONGRESSO

Conforme destacado, além das eleições para o cargo de presidente, haverá a mudança de toda a Câmara dos Deputados e de cerca de um terço do Senado. Atualmente, a Câmara dos Deputados se encontra sob controle democrata, situação que deve permanecer nas eleições de novembro. Por outro lado, o Senado tem maioria republicana e, por lá, a situação segue bastante indefinida.

De acordo com as pesquisas divulgadas, a Câmara dos Deputados deve se manter sob controle Democrata, que atualmente possui 232 assentos (14 acima do necessário para formar maioria), ante 197 republicanos 1 libertário, além de 5 assentos vagos.

Conforme apresentado da Figura 4, há atualmente cerca de 86% de chances de os democratas manterem o controle da Casa, ante apenas 15% de chance de controle republicano, de acordo com site Predict it.

Chances de obter maioria na Câmara

(Betting ods, PredictIt)

Figura 4: Chances de obter maioria na Câmara dos Deputados;
Fonte: Bloomberg e Predict It. Elaboração: SOMMA Investimentos.

No Senado, ao contrário da disputa pelo controle da Câmara – que apresenta ampla vantagem Democrata – a disputa segue apertada, com ambos os partidos com chances de obter controle da Casa.

Atualmente há 53 senadores republicanos e 47 democratas (2 dos quais independentes). Dos 35 cargos em disputa, 23 são republicanos e 12 democratas; desta forma, o partido democrata precisaria conquistar 3 ou 4 [4] desses 23 em disputa, além de não perder nenhum.

De acordo com o site 270 to win, que faz um levantamento da disputa em cada um dos estados americanos, das 35 cadeiras em disputa, 5 estão indefinidas (“toss up”, na expressão em inglês) – ou seja, as pesquisas mostram empate técnico entre os candidatos. Conforme apresentado na Figura 5, os democratas possuem 46 cadeiras prováveis e os republicanos 49; desta forma, os republicanos precisariam assegurar 2 dos 5 para manter o controle da Casa.

Figura 5: Cargos no Senado em Disputa;
Fonte e Elaboração: 270 to Win.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O cenário eleitoral americano apresentou uma mudança expressiva nos últimos meses. O candidato incumbente, Donald Trump, possuía como principal força a situação econômica americana, mas a pandemia do novo coronavírus trouxe um revés para a economia – a taxa de desemprego no país saiu do menor patamar em 5 décadas para o maior nível desde a segunda guerra mundial em apenas 2 meses – e para as intenções de reeleição de Trump.

As pesquisas eleitorais têm mostrado uma ampla vantagem do candidato Democrata, Joe Biden. Além disso, os democratas possuem chances significativas de obter o controle do Congresso do país, o que facilitaria a aprovação de sua agenda política/econômica.

Caso Joe Biden vença as eleições presidenciais, é de se esperar uma reforma tributária que aumente os impostos sobre as empresas e sobre famílias com renda mais alta. Por outro lado, o candidato democrata propõe um aumento de gastos sociais, além de políticas de gastos que combatam mudanças climáticas.

No que diz respeito às relações dos EUA com a China, uma vitória democrata deve levar ao arrefecimento das tensões comerciais entre os dois países. No entanto, outras fontes de tensão diplomática devem permanecer, tais como discussões sobre a autonomia de Hong Kong e direitos humanos no país asiático.

Além disso, a relação entre EUA e Brasil pode sofrer alguma deterioração no caso de uma vitória democrata, tendo em vista o maior interesse em adereçar mudanças climáticas. Desta forma, é possível esperar uma cobrança rígida dos EUA contra o desmatamento da Amazônia, cobrança essa que já vem sendo realizada por outros mecanismos e governos internacionais.

[1] Em 2016, por exemplo, a candidata Democrata, Hillary Clinton perdeu a eleição mesmo obtendo mais de 300 mil votos a mais do que Donald Trump.
[2] Apenas dois estados americanos não utilizam esse sistema: Maine e Nebraska (que juntos possuem apenas 9 delegados).
[3] Trump, que possui 73 anos, também será o presidente mais velho caso reeleito.
[4] 3 cadeiras caso o candidato Democrata, Joe Biden, vença, uma vez que o vice-presidente tem o poder de voto para desempatar votações.

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