O que esperar para a economia global em 2021?

O ano de 2020 foi marcado pela pandemia provocada pelo novo coronavírus (SARS-CoV2). A ausência de tratamentos ou de alguma vacina comprovadamente eficaz levou as autoridades a introduzirem duras medidas de isolamento social (“lockdown”) para evitar o colapso dos sistemas de saúde.

Como resultado das restrições – que prejudicaram duramente as atividades com maior interação social, como no setor de serviços – a economia global passou por uma forte e abrupta contração.

Não obstante, o suporte das políticas fiscal e monetária contribuiu para suavizar o choque sobre a atividade econômica e, ao mesmo tempo, para auxiliar a recuperação da atividade econômica, que teve como caraterística uma ampla desigualdade entre os setores. Além disso, o rápido e exitoso avanço no desenvolvimento de vacinas para a Covid-19, teve por efeito manter as perspectivas de médio/longo prazo positivas.

Assim, avaliando prospectivamente, mantemos uma visão positiva para o cenário externo em 2021, à medida que a atividade econômica global deve experimentar uma forte aceleração – sobretudo a partir da segunda metade do ano, com a imunização de uma proporção maior da população, o que deve possibilitar o relaxamento definitivo das medidas de distanciamento social.

O objetivo deste Comentário é apresentar nossas perspectivas para a economia global em 2021.

Coronavírus: apesar de curto prazo desafiador, vacinas mantém perspectivas positivas

A pandemia da Covid-19 continua assolando a maior parte dos países. Conforme pode ser observado na Figura 1[1], que apresenta a evolução de casos de Covid em países selecionados, alguns países da Europa apresentaram um forte aumento de casos a partir de setembro; no caso da França, por exemplo, o número de casos registrados foi mais de 7 vezes superior ao nível da primeira onda da pandemia, que atingiu o país entre março e abril.

O crescimento de casos levou a maior parte dos países europeus a retomar medidas de lockdown em novembro, o que contribuiu para amenizar a situação da pandemia. No entanto, o número de novas infeções continua elevado em alguns países, o que tem levado à necessidade de que sejam mantidas algumas restrições – a Alemanha, por exemplo, deu início a uma versão mais rígida de lockdown na última quarta-feira (16), que perdurará no mínimo até o início de janeiro.

Nos EUA, a situação também não está sob controle, uma vez que o país tem registrado um número extremamente elevado de novos casos, que tem sido acompanhado de um recorde de hospitalizações e de novas mortes confirmadas. Com isso, inúmeros estados têm retomado medidas restritivas, mas que, até o momento, não têm sido eficazes para o controle da situação.

Figura 1: Evolução de casos de Covid-19 em países selecionados;
Fonte: Bloomberg. Elaboração: SOMMA Investimentos.

Apesar de a situação atual da pandemia ser extremamente desafiadora – uma vez que o número ainda elevado de novos casos em algumas das principais economias leva à necessidade de manutenção de medidas restritivas –, no começo de dezembro tivemos a aprovação, pela agência reguladora do Reino Unido, da primeira vacina contra a Covid-19. A vacina  desenvolvida  pelas farmacêuticas Pfizer e BioNTech levou um período recorde (cerca de 11 meses) entre a sua criação e a aprovação pela “Anvisa” do Reino Unido.

A Tabela 1 apresenta algumas das vacinas cujo desenvolvimento está mais avançado. A vacina da Pfizer/BioNTech já foi aprovada para uso regular no Canadá e, para uso emergencial, nos EUA e em outros países. O mesmo deve acontecer com a vacina da Moderna – tendo em vista que ambas as utilizam a mesma tecnologia (RNA mensageiro) e tiveram níveis de eficácia semelhantes (acima de 90%).

Conforme destacado na tabela abaixo, a maior parte das vacinas para a Covid-19 será aplicada em um regime de duas doses; no caso da vacina da Pfizer, a segunda dose é aplicada 4 semanas (28 dias) após a dose inicial. A tabela apresenta ainda as características em termos de capacidade de produção esperada para 2021, temperatura de armazenamento e de preço estimado por dose (em dólares).

Tabela 1: Características de vacinas candidatas;
Fonte: Danske Bank. Elaboração: SOMMA Investimentos.

Tomando como base as 6 vacinas da Tabela, a capacidade de produção no próximo ano pode alcançar 8 bilhões de doses – o que seria suficiente para imunizar cerca de metade da população mundial. Além disso, há um número ainda maior de vacinas em etapas avançadas de desenvolvimento, o que deve possibilitar a produção de um número ainda maior de doses em 2021.

Apesar da incerteza em torno da capacidade de distribuição das vacinas (e, sobretudo, da disposição das pessoas em se vacinar), além de dúvidas a respeito da duração da imunidade[2] os avanços obtidos no desenvolvimento de vacinas são irrefutáveis, e devem propiciar um relaxamento das medidas de distanciamento social. Tal relaxamento deve levar a uma recuperação sólida da demanda por serviços – sobretudo nos segmentos com maior interação social – e, por conseguinte, gera um viés de forte crescimento da atividade econômica global.

Atividade Econômica Global

Em 2020, a economia global passou pela maior recessão desde a 2ª Guerra Mundial. As restrições impostas para controlar a Covid-19 tiveram um forte impacto negativo sobre inúmeras atividades do setor de serviços (como restaurantes, hotéis e outros serviços relacionados ao turismo por exemplo) – cujas atividades foram praticamente paralisadas em quase todos os países. Além disso, algumas indústrias tiveram dificuldades no acesso a insumos e, em alguns casos, a indisponibilidade de mão de obra atuou como fator limitante da produção.

Conforme apresentado na Figura 2, a contração da atividade econômica foi significativamente maior do que a registrada durante a crise financeira de 2008. O crescimento esperado para 2021, por sua vez, deve ser o maior desde 2010.

Figura 2: Decomposição do crescimento anual do PIB global;
Fonte: FMI. Elaboração: SOMMA Investimentos.

A expectativa de uma forte aceleração do crescimento em 2021, tem como pressuposto a expectativa de uma ampla disponibilidade de vacinas – cujo processo de imunização já teve início nos EUA e no Reino Unido, e deve ganhar tração nos primeiros meses do próximo ano. A disponibilidade de vacinas possibilitará a retirada das medidas restritivas que vigoraram ao longo deste ano e, como resultado, deve levar a um forte crescimento da demanda por bens e serviços.

A Figura 3 apresenta a mediana das projeções para o crescimento econômico dos EUA, Área do Euro e China.  No caso dos EUA, a expectativa é de uma contração do PIB de 3,6% neste ano, seguido de uma expansão de 3,8% em 2021. No caso da Área do Euro, a contração deste ano (7,3%) deve ser seguida de um crescimento de 4,6%; por fim, a economia chinesa, que irá crescer 2% neste ano, deve ter um crescimento robusto em 2021 (de 8,1%).

Figura 3: Crescimento econômico esperado para 2020 e 2021;
Fonte: FMI. Elaboração: SOMMA Investimentos.

O que esperar dos principais Bancos Centrais em 2021?

É importante notar que, a despeito da expectativa de forte aceleração da atividade econômica esperada para 2021, a maior parte dos países possui um nível de ociosidade elevado, sobretudo no mercado de trabalho. Nos EUA, por exemplo, o relatório de emprego não-agrícola (Payroll) de novembro mostrou que a economia americana recuperou pouco mais da metade dos 22 milhões de empregos perdidos durantes os meses de março e abril.

Conforme apresentado na Figura 4, a taxa de desemprego americana deve permanecer acima das estimativas do Fed para a Nairu[3] até o fim de 2021, tomando como base as projeções dos membros do Fomc[4]. A taxa de desemprego elevada deve evitar uma pressão inflacionária de salários que, por seu turno, leve a uma alta expressiva da inflação.

Figura 4: Taxa de Desemprego e Nairu dos EUA; Fonte: Fed. Elaboração: SOMMA Investimentos.

Em resumo, portanto, a existência de capacidade ociosa na maior parte das economias desenvolvidas deve fazer com que a aceleração esperada para a inflação permaneça sob controle. Por conta disso, não esperamos que os principais Bancos Centrais comecem a normalizar sua política monetária ainda em 2021. A Tabela 2 resume as nossas perspectivas para o Fed, Banco Central Europeu (BCE) e o BC do Japão (BoJ).

Tabela 2: Expectativas para os principais bancos centrais;
Fonte e Elaboração: SOMMA Investimentos.

Considerações finais

Em resumo, esperamos que o cenário externo permaneça amplamente favorável ao longo de 2021. A disponibilidade de vacinas para a Covid-19 deve possibilitar uma retirada duradoura das medidas de distanciamento social e, por conseguinte, levar a uma forte aceleração da atividade econômica global.

Além disso, a ausência de pressões inflacionárias a nível global – por conta da existência de um nível ainda elevado de ociosidade nas principais economias – deve fazer com que a maior parte dos Bancos Centrais mantenham uma política monetária ainda com elevado grau de acomodação – e, portanto, ainda distantes de uma normalização das taxas de juros. Com a liquidez mundial elevada e com a dissipação dos riscos atrelados à pandemia, os países emergentes – incluindo o Brasil – podem ser beneficiar de um maior fluxo de investimentos estrangeiros.

[1] As séries apresentam dois ajustes: (i) utilizamos a média móvel de 7 dias de casos confirmados para suavização e, além disso, (ii) ajustamos o número de casos pela população de cada país.
[2] Se a imunidade gerada pelas vacinas não for duradoura, sua aplicação deverá ser feita de tempos em temos, a exemplo da vacina para a gripe.
[3] Nairu é a sigla em inglês para non-accelerating inflation rate of unemployment (ou seja, uma taxa de desemprego que não acelera a inflação). Quando a taxa de desemprego está nesse patamar, diz-se que o mercado de trabalho se encontra em equilíbrio – isto é, sem provocar pressão inflacionária de salários.
[4] Assumindo que não ocorram mudanças no nível da Nairu ao longo de 2021.

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