Perspectivas para as eleições alemãs em 2021

Após 16 anos, a vida política da chanceler alemã Angela Merkel se encerrará. No dia 26 de setembro – próximo domingo, alemães irão às urnas para decidirem a direção em que desejam levar o futuro do país através da sua escolha do Bundestag, o parlamento alemão.

Diante disso, o comentário busca explicar como funciona o sistema eleitoral alemão e, o que está em jogo para os políticos e os cidadãos.  Vamos apresentar os principais nomes dos candidatos e sua percepção perante o público, expondo as possíveis consequências dos resultados das eleições.

O sistema eleitoral alemão

Os eleitores votam através de um sistema distrital misto, onde cada eleitor dispões de dois votos. No primeiro, é escolhido um candidato do seu próprio distrito, sendo eleito aquele que obtiver a maior quantidade de votos. Cada partido tem direito a lançar um nome por distrito ou por zona eleitoral. Já no segundo voto, vota-se na lista de candidatos definida por um dos partidos aptos a concorrer no estado federal do eleitor, se configurando um voto em legenda.

O segundo voto é muito importante, pois é ele que definirá o tamanho das bancadas no Bundestag. Caso um partido obtenha mais representantes através do primeiro voto do que teria direito pelo segundo voto, o voto em legenda, o número de deputados do parlamento é elevado até que a proporção dada pelo segundo voto corresponda ao número de eleitos pelo primeiro voto, sendo que os demais partidos também terão as suas bancadas ampliadas.

Considere um cenário hipotético, onde um partido, X, ganha 110 representantes no primeiro voto, mas obtêm somente 100 no segundo voto. Nesse cenário, o partido X tem 10 assentos a mais no parlamento do que deveria. Portanto, para nivelar o jogo, todos os outros partidos recebem os chamados “assentos balanceados”, que nesse exemplo seria um acréscimo de 10% da bancada.

Um partido obtém uma bancada somente se ele tiver, no mínimo, 5% dos votos válidos no segundo voto ou caso consiga eleger ao menos três deputados no primeiro voto. Caso este não consiga atingir os 5% e um deputado seu for eleito, esse não perde sua vaga, mas o seu partido não entra nos cálculos da proporcionalidade.

Por fim, o chanceler federal da Alemanha é eleito pelo Bundestag formado pelo resultado da votação popular, ou seja, por meio de uma eleição indireta. Os partidos, por meio de suas indicações a chanceler, antecipam ao eleitor quem eles submeterão à votação no Bundestag caso liderem uma coalizão de governo.

No entanto, nem todos os partidos indicam candidatos a chanceler federal. Geralmente, somente os que, de fato, veem chances de liderar uma coalizão o fazem. Os demais indicam cabeças de chapa, composto normalmente por dois nomes, uma mulher e um homem, em sua maioria os próprios presidentes do partido.

Figura 1: Sistema eleitoral alemão
Fonte: BBC. Elaboração: SOMMA Investimentos

Os partidos e candidatos a chanceler

Atualmente, os partidos com representação no Bundestag são a União Democrata Cristã (CDU) e União Social Cristã (CSU), que formam uma bancada única, o Partido Social Democrata da Alemanha (SPD), o Partido Verde, A Esquerda (Die Linke), o Partido Liberal Democrático (FDP) e, por último, Alternativa para a Alemanha (AfD). No momento, 10 deputados sem representação do partido ocupam assentos no parlamento.

Os indicados para suceder a atual chanceler Angela Merkel são Armin Laschet, líder da CDU, representante da CDU e CSU, Olaf Scholz, atual ministro das Finanças e vice-chanceler, representante do SPD e, por último, Annalena Baerbock, colíder e representante do Partido Verde.

Figura 2: Candidatos a chanceler
Elaboração: SOMMA Investimentos

A percepção eleitoral é bem diferente entre faixas etárias e regiões

O eleitorado alemão está envelhecendo e encolhendo. Em 2021, aproximadamente 60,4 milhões de pessoas poderão participar das eleições, uma redução de 1,3 milhões de pessoas quando comparado a última eleição, realizada em 2017, e mais da metade do eleitorado é composto pela população acima de 50 anos. O Federal Returning Officer espera o número de votantes abaixo dos 30 anos ser menor que 15%, enquanto os acima de 60 anos representarão mais de 38% dos votos totais. Isso se deve, principalmente, às mudanças demográficas enfrentadas pela Alemanha, que foram reduzidas devido a imigração. No entanto, os migrantes, em sua grande parte, não participarão da votação, pois, para poderem votar, necessitam renunciar a cidadania do seu país de origem e optar pela alemã, o que faz com que muitos não sejam considerados alemães e, consequentemente, não tenham direito ao voto.

Isso implica em uma grande influência da população mais velha, que apresenta tendência contrária às preferências da população mais jovem. Enquanto o Partido Verde apresenta melhores números em áreas urbanas, com uma população jovem e mais bem educada, a população idosa e do interior prefere por votar em partidos históricos e com maior nome, como o CDU e o SPD, que tendem a mudar menos as suas alianças.

Além disso, a percepção sobre os partidos muda também de acordo com a região da Alemanha. O partido de centro-direita CDU e o CSU, o de centro-esquerda SPD, o liberal FDP e o Partido Verde possuem maior parte de seu apoio no oeste do país, já na parte leste, o partido comunista Die Linke e o AfD, de extrema-direita, ganham mais força. Isso se deve a separação da Alemanha Ocidental e Oriental, que moldaram o pensamento do eleitor alemão após a sua unificação. Enquanto o lado mais populoso e com passado democrático prefere candidatos mais moderados, o lado menos populoso e com passado autoritário, tem preferência por discursos mais radicais.

Pesquisas apontam para a volta do SPD ao poder alemão

Pesquisas recentes mostram vantagem do partido social-democrata liderado por Olaf Scholz, com 25% das intenções de voto. Em segundo lugar, aparece a CDU, liderado pelo impopular Armin Laschet, com 22%, em terceiro, o Partido Verde aparece com 16% e o AfD e FDP com 11% das intenções dos votos. As pesquisas, que já chegaram a mostrar Annalena, do Partido Verde, liderar há alguns meses, mostram que o eleitor alemão ainda está indeciso sobre o seu voto.

Figura 3: Resultado das pesquisas eleitorais durante 2021
Fonte: POLITICO. Elaboração: SOMMA Investimentos

A eleição também pode representar um revés para o partido conservador, que acumulava vitórias com Merkel e superavam a barreira dos 30% dos votos nas legislativas. A falta de popularidade do seu novo líder, Armin Laschet, é o principal fator para um possível fracasso do partido. Este é governador de Renânia do Norte-Westfalia, uma das regiões afetadas pelas inundações no mês de julho, e foi filmado sorrindo durante uma visita a uma das zonas afetadas, causando em uma queda ainda maior da sua popularidade.

Além disso, Olaf Scholz, vice-chanceler e ministro das Finanças, passa aos eleitores uma imagem de “nova Merkel”, de uma figura centralizada e tranquilizadora. Mas, apesar da vantagem de Olaf e do SPD, a divisão e incerteza, vistas na eleição, podem levar a negociações de uma coalizão integrada por, ao menos, três partidos, para garantir a maioria no Bundestag. Nesse cenário, os liberais (FDP), que apresentam 12% das intenções de voto, podem fazer parte do governo, já que a extrema-direita é descartada. As alianças poderiam girar em torno dos sociais-democratas, ou conservadores, e ecologistas e liberais.

No entanto, caso ocorra algo parecido nas eleições de 2017, quando os partidos alemães precisaram de cinco meses para estabelecerem uma coalizão e formar o governo, Merkel deverá seguir como chanceler.  Seus ministros também continuariam a frente do governo de forma interina, mas com funções limitadas, até se chegar uma conclusão das negociações.

A Alemanha tem grandes desafios à sua frente

O pós-eleição, independentemente do vencedor, será marcado pelos desafios que a nova coalizão do governo enfrentará pela frente. A pandemia do covid-19 expôs grandes problemas do país, como a falta de integração digital, um sistema de educação e de infraestrutura que está ruindo, e uma pesada burocracia. O país também encontra desafios ao tentar achar soluções para a sua meta de neutralidade em emissões de carbono até 2045, sem afetar as suas exportações.

Os tempos mudaram quando comparados aos tranquilos anos vividos pelo governo Merkel. A polarização é maior, os conflitos sobre o ecossistema e o ambiente são mais intensos e, além disso, há o aspecto fiscal da dívida do país. A nova coalizão enfrentará um parlamento mais descentralizado e um sistema político que apresenta sinais de tensão.

O cenário político, que era estabilizado pelo CDU, CSU e SPD, teve negociações deterioradas devido a fragmentação política aliada a falta de recursos, gerando conflitos e separações notáveis. A diversidade da sociedade, acompanhada pela mudança política que a reflete, pode acentuar ainda mais a fragmentação política e causar uma instabilidade no governo, o que não foi comum nos últimos 16 anos.

As incertezas geradas pelas coalizões podem impactar negativamente a economia alemã e consequentemente a economia europeia. As perspectivas em torno de uma coalizão “Vermelho-Vermelho-Verde”, SPD-Die Linke-Partido Verde, alertam os principais economistas das universidades alemãs, que entendem que o governo poderia causar um maior desemprego e tomar menor cuidado com a parte fiscal do país, apesar de reduzir a inequalidade, devido a mudança na condução da política econômica, com impostos mais altos e aumento de transferências governamentais. No caso de uma coalizão, ainda que improvável, da CDU/CSU com o FDP, a perspectiva seria de um governo voltado ao negócio, apesar de apresentar tendência de piora nas questões climáticas, muito levantadas pela população mais jovem da Alemanha e por partidos de esquerda.

Consideração final

A eleição alemã, realizada no dia 26, representará uma quebra da continuidade e estabilidade representada pela figura de Angela Merkel nos últimos 16 anos. Não há um governo e uma coalizão certa, o que pode gerar grandes discussões no parlamento, atrasando a transição do governo e acentuando ainda mais a ruptura política, em um período de crise global gerado pela pandemia.

O país, além de enfrentar obstáculos políticos, ainda deve lutar contra o atraso de sua própria infraestrutura, investindo na modernização e em práticas que reduzem a burocracia do estado. O governo Merkel, apesar de ser visto com bons olhos por boa parte dos alemães, é muito criticado justamente por não ter preparado a nação para o futuro.

De problemas climáticos à problemas econômicos, o próximo governo alemão deverá montar o plano para os seus sucessores, visto a improbabilidade de outro governo que dure mais de uma década e coalizões bipartidárias. A renovação política é importante para a Alemanha e representa uma transição de ideias, com a população mais jovem e, possivelmente imigrantes, participando da votação, mas gera incertezas em relação as políticas futuras adotadas pelo país.

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