Qual será a queda da economia brasileira em 2020?

As perspectivas para o crescimento da economia brasileira ao início deste ano eram positivas. Esperávamos continuidade da retomada gradual da economia, com otimismo em relação a aprovação de reformas vistas como essenciais – como a reforma tributária e a administrativa.

No entanto, a pandemia do novo coronavírus mudou radicalmente o cenário – tendo em vista a expressiva propagação da COVID-19 no território brasileiro. A ausência de tratamento ou vacina, associada a uma alta taxa de propagação, levou as autoridades, na maior parte dos países, a adotarem medidas de distanciamento social. Essas medidas, no entanto, acabam por ter um impacto negativo sobre a atividade econômica – ou seja, quanto maior a necessidade de as pessoas ficarem em casa, maior os impactos econômicos.

Desta forma, o que se seguiu foram quedas expressivas na atividade econômica mundial, que levou a uma recessão maior do que a observada na crise financeira de 2008. O aumento da incerteza – sobre, por exemplo, duração das medidas de distanciamento, forma de recuperação da economia pós-pandemia, entre outras coisas – trouxe maior volatilidade aos mercados.

A economia brasileira também passa por um momento crítico, uma vez que os impactos econômicos também se mostraram severos. Diante desse cenário, apresentamos nossas novas projeções para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020 e 2021.

O objetivo deste comentário é apresentar o resultado do PIB brasileiro no 1º trimestre de 2020 e a revisão de nossas projeções para o crescimento do PIB em 2020 e 2021.

PIB brasileiro no 1º trimestre de 2020

Ao final de maio, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou o resultado do PIB para o primeiro trimestre de 2020. Conforme o esperado, observou-se que as medidas de distanciamento social, adotadas a partir da segunda semana de março, repercutiram em quase todos os setores. Segundo o IBGE, a economia brasileira apresentou contração de 1,5% no 1º trimestre de 2020, na comparação com o trimestre anterior, em linha com as nossas projeções (-1.6%) e pelo mercado.

Pelo lado da oferta, foram observados recuos do setor industrial (-1,4%) e do setor de serviços (-1,6%); o setor agropecuário, por outro lado, apresentou crescimento de 0,6%. Conforme pode ser observado na Figura 1, a produção da indústria brasileira se encontra quase 15% abaixo do pico registrado no primeiro trimestre de 2014.

O resultado positivo da agropecuária pode ser explicado pelo desempenho de produtos com safras relevantes nesse trimestre – como soja (6,7%) e arroz (6,5%). Eles compensaram o fraco desemprenho de outras lavouras como fumo (-7,8%) e milho (-3,4%). Também é importante notar o fraco desempenho da pecuária e da produção florestal.

Dentre as atividades industriais, a Indústria Extrativa apresentou a maior queda (-3,2%). Também apresentaram taxas negativas a Construção (-2,4%), a Indústria da Transformação (-1,4%) e as atividades de eletricidade e água (-0,1%).

Com relação os serviços, a única variação positiva veio das atividades imobiliárias, com 0,4% de crescimento. Nos resultados negativos destaque para Outros Serviços (-4,6%) e Transporte, armazenagem e correio (-2,4%).

Figura 1: Evolução do PIB e Componentes da Oferta (índice 2014.1 =100); Fonte: IBGE Elaboração: SOMMA Investimentos.
Figura 1: Evolução do PIB e Componentes da Oferta (índice 2014.1 =100);
Fonte: IBGE Elaboração: SOMMA Investimentos.

Pela ótica da demanda, nota-se o impacto da pandemia no consumo das famílias, que apresentou queda de 2,0% no primeiro trimestre do ano enquanto a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) e a Despesa de Consumo do Governo apresentaram crescimento de, respectivamente, 3,1% e 0,2% no trimestre. Entre os componentes do setor externo, as exportações de Bens e serviços tiveram queda de 0,9%, enquanto as importações cresceram 2,8%.

Ainda pela ótica da demanda, o desempenho positivo dos investimentos (FBCF) e das importações demonstram que, antes da pandemia, o processo de retomada da econômica estava em andamento. A FBCF teve alta após ter registrado queda de 3,3% no trimestre anterior e as importações – sobretudo de máquinas e equipamentos – também sinalizariam reaquecimento da economia que acabou sendo interrompida, conforme mostram os dados prévios do segundo trimestre.

Quando avaliamos em uma janela maior, tal como apresentado na Figura 2, é possível perceber um desempenho fraco dos investimentos nos últimos anos – a FBCF no primeiro trimestre deste ano foi 23,5% menor do que a registrada no mesmo trimestre de 2014.

Figura 2: Evolução do PIB e Componentes da Demanda (índice 2014.1 =100); Fonte: IBGE Elaboração: SOMMA Investimentos.
Figura 2: Evolução do PIB e Componentes da Demanda (índice 2014.1 =100);
Fonte: IBGE Elaboração: SOMMA Investimentos.

Impactos do Coronavírus nos próximos trimestres

Apesar de já terem sido observados impactos das medidas de isolamento social no 1° trimestre, a expectativa é de que no 2º trimestre o choque seja ainda maior. Dados de atividade e de confiança dos setores para o mês de abril mostram-se ainda piores, quando comparados com dados do mês anterior.

A produção industrial, por exemplo, caiu 18,8% em abril (MoM), maior queda em quase duas décadas. Tal desempenho se deveu a uma queda expressiva da produção de veículos, que despencou 99% no mês, segundo dados publicados pela Anfavea.

Por fim, o impacto também foi significativo nos indicadores de confiança dos setores e no consumo. O índice de Confiança Empresarial da FGV – indicador que consolida os índices de confiança dos quatro setores: Indústria, Serviços, Comércio e Construção – caiu 33,7 pontos em abril, menor valor da série histórica. O índice de confiança dos consumidores, por sua vez, recuou 22 pontos. Esses indicadores são de grande importância pois quedas na confiança dos agentes econômicos se refletem em níveis menores de consumo e de investimento.

O lado positivo, é que os dados de maio apontam em estabilização dos indicadores. A expectativa é de que as maiores quedas estejam restritas aos meses de março e abril, pois nos meses seguintes já se observa uma retomada, ainda que gradual, da atividade econômica.

Diante disso, após queda de 1,5% no 1T20, esperamos uma queda de 10,5% no PIB do segundo trimestre. Com a estabilização da pandemia – prevista para acontecer em agosto segundo estudos – espera-se o início da retomada da economia no final do terceiro trimestre. Em nosso cenário base, o crescimento da atividade ganha maior tração no último trimestre de 2020, com maior força em 2021.

Projeções da Pesquisa Focus

Antes de demonstrar a abertura das nossas projeções, vamos apresentar as projeções de crescimento para este ano obtidas a partir da pesquisa Focus. Na Figura 3, a região sombreada mostra o intervalo (máximo e mínimo) das expectativas e a linha azul mostra a sua mediana.

Conforme apresentado, houve forte redução nas expectativas para o crescimento desse ano desde o início da pandemia no país. No início de março, o mercado esperava crescimento de 2,13% do PIB. Atualmente, devido aos impactos da COVID-19 na economia brasileira, as projeções indicam contração de 6,48%.

Também é importante notar a grande variabilidade das projeções de mercado. O agente mais otimista espera queda de 3,83% este ano, enquanto a projeção mais pessimista espera queda 11,0%.

Figura 3: Crescimento Esperado do PIB – Focus (%); Fonte: BC. Elaboração: SOMMA Investimentos.
Figura 3: Crescimento Esperado do PIB – Focus (%);
Fonte: BC. Elaboração: SOMMA Investimentos.

Nossas projeções

No que diz respeito às nossas projeções, o crescimento esperado para 2020 e para 2021 podem ser observados na Figura 4. Como descrito no Comentário Somma 45, projetávamos um crescimento de 1,6% para 2020 antes do choque provocado pela COVID-19. Entretanto, após o severo impacto do coronavírus no país e no mundo, revisamos a nossa projeção para uma contração de 7,8% neste ano.

Além da redução da nossa projeção de crescimento para esse ano, revisamos nossa projeção de crescimento para 2021. Devido sobretudo à base de comparação baixa e à perspectiva de retomada do crescimento a partir do terceiro trimestre de 2020, revisamos nossa projeção de 2,5% para 4,2%.

Figura 4: Crescimento anual do PIB Fonte: IBGE e Elaboração: SOMMA Investimentos
Figura 4: Crescimento anual do PIB
Fonte: IBGE. Elaboração: SOMMA Investimentos

Considerações finais

Devido aos impactos da pandemia na economia brasileira, esperamos contração do PIB na ordem de -7,8% no ano de 2020. Os primeiros sinais de contração da atividade já foram percebidos com a divulgação do resultado do PIB para o primeiro trimestre e indicadores mostram um impacto ainda maior para o segundo trimestre.

Apesar do cenário deteriorado, é possível vislumbrar algum otimismo com o futuro. Os países em estágios mais avançados no controle da pandemia permitem a realização de algumas inferências. A expectativa é de que, controlada a pandemia, a atividade econômica volte a um cenário de retomada semelhante à observada no início do ano. Essa retomada já pode, inclusive, ser observada em países que já estão voltando à suas atividades, como a China, Europa e os Estados Unidos.

A recuperação deve acontecer, mas deve ser mais lenta do que a esperada anteriormente. Os impactos dessa crise são maiores que os impactos observados em 2008 e, com isso, os níveis de confiança – que afetam decisões de consumo e investimento – foram afetados mais severamente e devem demorar mais para voltar a patamares anteriores. Essa retomada, porém, acontece, como já pode ser observado nos indicadores de confiança de maio.

Outro fator importante a observar é a retomada do ajuste fiscal. O impacto fiscal das medidas anunciadas para tentar conter os impactos da pandemia será bastante expressivo e deve ser restrito a esse ano. Em 2021, espera-se a retomada da agenda de reformas, inclusive com reformas mais robustas.

Apesar deste otimismo cauteloso quanto ao futuro, ainda há um fator de incerteza muito significativo: a data de controle da pandemia no país. Quando esse fator se tornar menos incerto, com o controle da pandemia no Brasil, poderemos ver com mais clareza a retomada da economia – condicionada à retomada da agenda de reformas.

 

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