Vacinação e reabertura econômica no Brasil

A pandemia provocada pelo Coronavírus resultou em uma grave crise econômica mundial no ano de 2020. Sem vacinas e sem um tratamento eficaz contra a doença, medidas de restrição econômica e de distanciamento social foram implementadas na tentativa de conter a proliferação do vírus.

Entretanto, no final do ano passado, vacinas começaram a ser aprovadas por agências reguladoras e passaram a ser distribuídas em diversas localidades. A partir de então nos países em que a vacinação avançou se observou uma diminuição das medidas restritivas, com normalização – ainda que parcial – da economia. Percebe-se, assim, que para uma retomada consistente da atividade econômica, o processo de imunização é essencial.

Diante desse cenário, o principal objetivo deste comentário é apresentar os principais pontos de um estudo realizado pelo banco de investimentos UBS que permite realizar um panorama de vacinação no Brasil, bem como as expectativas para a normalização da atividade econômica.

Vacinação: comparação internacional

 Ao compararmos o processo de vacinação no Brasil com o processo de vacinação em outros países percebemos que o país não apresenta um desempenho global ruim. Em termos absolutos vemos que o Brasil está entre países da Europa e outros emergentes, sendo um dos melhores emergentes em termos de doses por milhão.

Figura 1: Doses – comparação mundial;
Fonte: Our world in Data. Elaboração: SOMMA Investimentos.

Entretanto, observar apenas estes dados pode resultar em intepretações erradas, dado que a pessoa pode precisar de duas doses da vacina para estar imunizada – dependendo da vacina utilizada. Por isso, vamos analisar as vacinas disponíveis no Brasil e qual a expectativa de recebimento para os próximos meses.

Vacinas distribuídas e doses esperadas

Quando olhamos especificamente à vacinação no Brasil, vemos que são 4 as principais vacinas administradas – Coronavac, AstraZeneca, Pfizer e Janssen. Até o final de abril as vacinas aplicadas têm sido, principalmente, a Coronavac – representando 77,6% das doses até o final de abril – e a AstraZeneca – representando 22,4%. Quando analisamos as distribuições de doses da Pfizer e da Jansen vemos que elas são quase insignificantes até agora.

Figura 2: Distribuição das vacinas principais;
Fonte: DATASUS, USB Estimastes. Elaboração: SOMMA Investimentos.

É importante notar que entre as principais vacinas, apenas a da Jansen é de dose única. Todas as outras necessitam de uma dose de reforço, sendo que o intervalo entre as doses é o seguinte:

– Coronavac: 2 doses, com intervalo de 2 – 4 semanas;

– AstraZeneca: 2 doses, com intervalo de 8 – 12 semanas;

– Pfizer: 2 doses, com intervalo de 3 semanas.

Essas informações são importantes para, juntamente com os dados de expectativas de novos recebimentos de doses, se possa projetar quando a população estará imunizada.

Com relação aos próximos meses, devemos observar um aumento significativo de recebimento de doses até julho. Em agosto e setembro devemos ter uma redução, mas em outubro – com a entrega de doses da vacina da Janssen – poderemos chegar a 2 milhões de doses por dia, tendo em média 60 milhões de vacinas por meses. Com isso, a expectativa é de que tenhamos 395,453 milhões de doses até o final do ano.

Figura 3:Expectativas de recebimento de doses pela UBS;
Fonte: DATASUS, USB Estimastes. Elaboração: SOMMA Investimentos.

Hospitalizações, internações e mortes

Para avaliar os efeitos do processo de imunização sobre a evolução da pandemia no país, é muito importante entender quais os efeitos da vacinação sobre as taxas de internações, ocupações de UTIs e óbitos. Conforme poderá ser observado, o estudo do UBS sustenta a ideia de que a vacinação é o fator mais importante na determinação desses números.

Após o início da vacinação em janeiro, a participação da população de 80 anos ou mais em hospitalizações caiu de 15% para 7,5%. Ainda, a participação na ocupação de leitos de UTIs caiu de 18% para 7,5%.

Figura 4:Participação nas hospitalizações e leitos de UTIs (80 anos ou mais).
Fonte e elaboração: DATASUS, USB.

Se removermos a população acima de 80 anos da análise, percebemos que as novas participações relativas mostram que não é a população mais jovem que aumentou a sua participação. De fato, os mais velhos – já vacinados – que reduziram a sua.

Figura 5: Participação nas hospitalizações e leitos de UTIs (0- 79 anos).
Fonte e elaboração: DATASUS, USB.

Nota-se que apesar de diferenças no processo de vacinação pelo país, a redução da participação no número de internações e de leitos de UTIs ocorreu mais fortemente na população idosa – já vacinada. O mesmo efeito pode ser observado com relação ao número de mortes, que também apresentaram redução nessas faixas etárias após o início do processo de vacinação.

Por fim, quando analisamos a distribuição populacional analisando apenas a população de zero a 69 anos – que ainda não recebeu vacina – vemos que a participação nas taxas de internação e de ocupação de leitos de UTI não mudou desde janeiro. Isso reforça o papel essencial da vacinação de pessoas abaixo de 60 anos na diminuição da pressão sobre o sistema de saúde.

Figura 6: Participação nas hospitalizações e leitos de UTIs (0- 69 anos).
Fonte e elaboração: DATASUS, USB.

Considerações finais

Conforme observado em países desenvolvidos, o processo de vacinação da população reduz o número de hospitalizações e internações em UTIs. Com isso, é possível reduzir as medidas de distanciamento social e promover a reabertura das atividades econômicas.

No Brasil, a redução no número de hospitalizações e internações em UTIs também foi observada entre os grupos já vacinados (80 anos ou +). Ainda de acordo com o estudo realizado pelo UBS, embora os brasileiros com mais 60 anos representem apenas 14% da população, eles representaram 53% das hospitalizações, 60% dos que utilizavam UTIs e 75% das mortes. Assim, a vacinação desse grupo é essencial para reduzir a pressão sobre o sistema de saúde. Com o ritmo de vacinação atual, a expectativa é de que esse grupo seja totalmente vacinado até o final de junho.

Além disso, adicionando a população com mais de 30 anos – que representa 56% da população – temos esta faixa etária representando 96% do uso das UTIs e 98,5% dos óbitos. Assim, se alcançada a imunidade desse grupo, e na população com 60 anos ou mais, estaríamos com uma imunidade eficaz – permitindo que a atividade econômica se normalizasse. A expectativa do UBS é de que, com o ritmo de vacinação atual, esse grupo seja vacinado entre setembro e outubro, de modo que o 4º trimestre do ano deve apresentar recuperação econômica mais forte.

Por fim, é importante notar que essa imunidade eficaz não é a imunidade de rebanho – já que o vírus continuaria circulando. Entretanto, ela deve ser o suficiente para permitir a redução do número de hospitalizações e mortes e para permitir uma remoção maior das restrições de mobilidade.

O estudo completo está disponível no link: https://studylib.net/doc/25526078/brazil-vaccination-ubs-20210506

 

 

 

 

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